DESDE QUE ME CONHEÇO QUE PORTUGAL E OS PORTUGUESES VIVEM SEMPRE ENRASCADOS NÃO VENDO MANEIRA DE SAIR DA ACTUAL SITUAÇÃO. A TENDÊNCIA É PARA PIORAR E NÃO PARA MELHORAR, GRAÇAS AOS MAUS POLÍTICOS QUE NOS TÊM GOVERNADO DESDE HÁ ANOS E TUDO VAI CONTINUAR A RESVALAR PARA O FUNDO DO PRECIPÍCIO.
domingo, 6 de novembro de 2011
Economia e mídia
Luiz Gonzaga Belluzzo
Os embalos da opinião econômica
Professor da escola de economia de Paris, Bertrand Rothé abre seu artigo na
revista Marianne com uma pergunta: por que os economistas midiáticos
defendem com tanto ardor um sistema falido? Ele responde: porque eles são
pagos pelos bancos. Um tanto rude, a resposta.
Mas Rothé mata a cobra e mostra o pau. Diz o economista que, em 10 de
agosto, o jornal Le Monde publicou no caderno Debates 22 depoimentos de
especialistas na matéria. Nesse grupo de sabichões, 16 (76,6%) são ligados a
instituições financeiras. A promiscuidade vai longe. Anton Brender, reputado
economista da esquerda francesa, hoje diretor de estudos econômicos do Dexia
Asset Management usou duas páginas do Nouvel Observateur para concluir que
“não são os mercados que estão em causa, mas a impotência política.”
A quase unanimidade, o realejo de opiniões banais encontra na mídia
contemporânea um espaço ideal. Um jornalista do L’Expansion justificou a
preferência pela ligeireza: “Os economistas de bancos sabem responder
rápido, eles são pagos para isso. Esse já não é o caso dos universitários
que se entregam à reflexão e cujas nuances são difíceis de transcrever.”
Vamos às relações entre “impotência política”, descuidos midiáticos e
captura dos economistas. Até mesmo um idiota fundamental é capaz de perceber
que na construção da crise atual a “impotência política” tem origem na
ocupação do Estado e de seus órgãos de regulação pelas tropas da finança e
dos graúdos interesses, digamos, corporativos, aí incluídos aqueles das
megaempresas de mídia. As tropelias do meliante Rupert Murdoch dão
testemunho das ligações perigosas entre o mass media, a política e a
polícia. No Brasil é o “puder”, já na pérfida Albion it’s power.
O americano Robert Kaiser no livro So Damn Much Money listou 188
ex-congressistas registrados oficialmente como lobistas em Washington. A
pesquisa de Kaiser revela como funciona a porta giratória entre os grandes
negócios e a política. Estudo realizado por um grupo de advogados, o Public
Citizen, flagrou na nobre ocupação de lobistas metade dos senadores e 42%
dos deputados que deixaram o Congresso entre 1998 e 2004. No período
1998-2011 o setor financeiro gastou 84,5 bilhões de dólares com essa turma.
Há “rachuncho” com o caixa das campanhas políticas.
Não escasseiam relatórios oficiais, depoimentos, documentários e livros de
gente oriunda dos mercados a respeito da invasão dos bárbaros na cidadela da
política e das políticas. Nesse espaço que, generosamente, me reserva
CartaCapital, já publiquei um artigo sobre o relatório do Congresso
americano que expõe as tropelias dos agentes da finança na montagem da crise
financeira.
“No relatório do Congresso, o percurso em direção à crise é analisado
mediante a narrativa de episódios esdrúxulos e de depoimentos patéticos de
banqueiros, altos executivos e autoridades. A articulação entre as falas e
as narrativas permite uma avaliação do papel desempenhado pelos vários
fatores e protagonistas que levaram a economia global da euforia e da
depressão: as inovações financeiras geradoras de instabilidade, a omissão
sistemática das autoridades encarregadas de supervisionar os mercados de
hipotecas e, finalmente, a farra da emissão de securities lastreadas em
empréstimos imobiliários.
Before Our Very Eyes, assim é denominado o primeiro capítulo do Relatório do
Congresso. Em linguagem popular “Estava na Cara”. É difícil negar que, ao
longo dos anos de gestação da crise, os olhos – os da mídia incluídos –
estiveram vendados pela trava que os hipócritas apontam na visão alheia
(Palavras de Cristo, de admirável sabedoria). Já no caso de muitos
economistas eminentes, sempre procura-dos para opinar, os olhos estavam
travados, mas as imagens e palavras do documentário de Charles Ferguson,
Inside Job, sugerem que os bolsos estavam arreganhados para a grana que
escorria das façanhas da haute finance.
Ian Fletcher, autor do livro Free Trade Doesn’t Work, descreve formas mais
sutis de cooptação dos economistas. Tais métodos, diz ele, não frequentam o
ethos de bordel, com propostas do tipo “diga X e lhe pagarei Y”. Mas na
faina de conseguir clientes, muitos economistas devem cultivar a reputação
de sempre dizer aquilo que o freguês quer ouvir. “Certas ideias, como o
aumento da desigualdade e problemas acarretados pelo livre-comércio devem
ser evitadas. Elas não são economicamente corretas.” A mídia, em seus
trabalhos de purificação da opinião pública, cuida de retirar tais
“excentricidades” de circulação, assim como a polícia leva a enxovias os
manifestantes de Ocupe Wall Street, uma súcia de desordeiros desatinados e
desordeiras de barriga de fora.
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